Por que o autor deseja escrever uma história engraçada

Por que o autor deseja escrever uma história engraçada

Então vou trabalhar num açougue. Serviria para fazer barquinhos, para fazer fogueira nas arquibancadas do Maracanã, para forrar sapato furado ou para quebrar um galho em banheiro de estrada? Imaginei-me com uns textos na mão, correndo pelas ruas para oferecer às pessoas, assim como quem oferece hoje bilhete de loteria: - Por favor amigo, leia - disse, puxando um cidadão pelo paletó. - Não, obrigado. Não estou interessado. Nos últimos cinco anos a única coisa que leio é a bula de remédio. - E a senhorita não quer ler? - perguntei, acompanhando os passos de uma universitária. – A senhorita vai gostar. É um texto muito curioso. 26 - O senhor só tem escrito? Então não quero. Por que o senhor não grava o texto? Fica mais fácil ouvi-lo no meu gravador. - E o senhor, não está interessado nuns textos? - É sobre o quê? Ensina como ganhar dinheiro? - E o senhor, vai? Leva três e paga um. - Deixa eu ver o tamanho - pediu ele. Assustou-se com o tamanho do texto: - O quê? Tudo isso? O senhor está pensando que sou vagabundo? Que tenho tempo para ler tudo isso? Não dá para resumir tudo em cinco linhas? (Carlos Eduardo Novaes) Com base no texto, responda ao que se pede: 1. No diálogo entre a mãe e o autor do texto, percebe-se uma crítica velada a respeito dos professores no Brasil. Identifique a crítica. 2. O texto apresenta a causa porque os estudantes brasileiros não sabem escrever. Qual é? 3. Se os estudantes brasileiros, segundo o autor, não sabem escrever porque não lêem, qual deve ser a estratégia que os professores devem utilizar para reverter essa situação? 4. Que outras causas podem contribuir para que o estudante brasileiro tenha dificuldades para escrever? 5. Por que o autor utilizou a grafia errada nas palavras do título do texto? 6. O autor se valeu dos fonemas e suas representações gráficas, em português, para chamar a atenção do leitor. Algumas palavras, em português, podem ter o seu sentido alterado (ou não) em razão da sua representação gráfica. No caso do título do texto, houve alteração de sentido? Justifique. 27 ANEXO IX MEU IDEAL SERIA ESCREVER... Rubem Braga Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – “ai meu Deus, que história mais engraçada!” E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa (que não sai de casa), enlutada (profundamente triste), doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria – “mas essa história é mesmo muito engraçada!” Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada como o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má-vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos. Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera, a minha história chegasse – e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário ((autoridade policial) do distrito (divisão territorial em que se exerce autoridade administrativa, judicial, fiscal ou policial), depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse – “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!” E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história. E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa (habitante da antiga Pérsia, atual Irã), na Nigéria (país da África), a um australiano, em Dublin (capital da Irlanda), a um japonês, em Chicago – mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo fórmula da reconquista tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou (introduziu-se lentamente em) por acaso até nosso conhecimento; é divina.” 28 E quando todos me perguntassem – “mas de onde é que você tirou essa história?” – eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história...” E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro. INTERPRETAÇÃO DO TEXTO 1. Por que o autor deseja escrever uma história engraçada? 2. Por que ele diz que a moça tem uma casa cinzenta, e não verde, azul ou amarela? 3. Ao descrever um raio de sol, o autor lhe atribui características que, de certa forma, se opõem às da moça. Cite algumas dessas características opostas. 4. Como você interpretaria a oração “que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria”? 5. O autor sonha em tornar mais felizes e sensíveis apenas as pessoas de seu país? Justifique. 6. Relacione as colunas conforme as reações das pessoas diante da história: (a) moça triste ( ) libertaria os detentos, dizendo-lhes para se comportarem, pois não gostava de prender ninguém (b) amigas da moça triste ( ) sentir-se-ia tão feliz que se lembraria do alegre tempo de namoro (c) casal mal-humorado ( ) ficariam espantadas com a alegria repentina da moça (d) comissário do distrito ( ) concluiria que teria valido a pena viver tanto, só para ouvir uma história tão engraçada (e) sábio chinês ( ) ficaria feliz e contaria a história para a cozinheira e as amigas 7. Por que o autor não contaria aos outros que havia inventado a história engraçada para alegrar a moça triste e doente? Marque a alternativa correta: (a) porque, na verdade, a moça triste não existia (b) por que ele mesmo não achava a história engraçada (c) por modéstia e humildade (d) porque não acreditariam que ele fosse capaz de inventar aquela história 8. Afinal, que história Rubem Braga inventou para alegrar e comover tantas pessoas? 9. Em sua opinião, o que mais sensibiliza as pessoas: histórias engraçadas ou dramáticas? Justifique. 29 REFERÊNCIAS MARTINS, Dileta Silveira; ZILBERKNOP, Lúbia Scliar. Português Instrumental. 24 ed.Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 2003. MEDEIROS, João Bosco. Português Instrumental:

Por que o autor deseja escrever uma história engraçada
Por que o autor deseja escrever uma história engraçada
Por que o autor deseja escrever uma história engraçada

Por que o autor deseja escrever uma história engraçada

TEXTO: MEU IDEAL SERIA ESCREVER... – Rubem Braga Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – “ai meu Deus, que história mais engraçada!” E então a contasse para a  cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa (que não sai de casa), enlutada (profundamente triste), doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria – “mas essa história é mesmo muito engraçada!” Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada como o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má-vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos. Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera, a minha história chegasse – e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário ((autoridade policial) do distrito (divisão territorial em que se exerce autoridade administrativa, judicial, fiscal ou policial), depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse – “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!” E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história. E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa (habitante da antiga Pérsia, atual Irã), na Nigéria (país da África), a um australiano, em Dublin (capital da Irlanda), a um japonês, em Chicago – mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou (introduziu-se lentamente em) por acaso até nosso conhecimento; é divina.” E quando todos me perguntassem – “mas de onde é que você tirou essa história?” – eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história...” E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro. INTERPRETAÇÃO DO TEXTO 01) Por que o autor deseja escrever uma história engraçada? 02) Por que ele diz que a moça tem uma casa cinzenta, e não verde, azul ou amarela? 03) Ao descrever um raio de sol, o autor lhe atribui características que, de certa forma, se opõem às da moça. Cite algumas dessas características opostas. 04) Como você interpretaria a oração “que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria”? 05) O autor sonha em tornar mais felizes e sensíveis apenas as pessoas de seu país? Justifique. 06) Relacione as colunas conforme as reações das pessoas diante da história: (a) moça triste (     ) libertaria os detentos, dizendo-lhes para se comportarem, pois não gostava de prender ninguém (b) amigas da moça triste (     ) sentir-se-ia tão feliz que se lembraria do alegre tempo de namoro (c) casal mal-humorado (     ) ficariam espantadas com a alegria repentina da moça (d) comissário do distrito (     ) concluiria que teria valido a pena viver tanto, só para ouvir uma história tão engraçada (e) sábio chinês (     ) ficaria feliz e contaria a história para a cozinheira e as amigas 07) Por que o autor não contaria aos outros que havia inventado a história engraçada para alegrar a moça triste e doente? Copie a alternativa correta: (a) porque, na verdade, a moça triste não existia (b) por que ele mesmo não achava a história engraçada (c) por modéstia e humildade (d) porque não acreditariam que ele fosse capaz de inventar aquela história 08) Afinal, que história Rubem Braga inventou para alegrar e comover tantas pessoas? 09) Na sua opinião, o que mais sensibiliza as pessoas: histórias engraçadas ou dramáticas? Justifique.